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Consulesa da França no Brasil recomenda revisão de tratamento às minorias

A consulesa da França no Brasil, Alexandra Baldeh Loras, disse hoje (29) à Agência Brasil que é preciso que os valores de liberdade, igualdade e fraternidade defendidos por seus compatriotas sejam

estendidos às minorias que vivem em seu país e são também francesas. De origem judaica e muçulmana, Alexandra é formada em ciências políticas e participou, no Rio de Janeiro, do debate Charlie Hebdo – Terrorismo e Liberdade, promovido pelo Centro  Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

O que  deixou a consulesa mais perplexa e angustiada no recente ataque ao semanário Charlie Hebdo, em Paris, quando 12 pessoas foram mortas, foi o fato de que os criminosos eram também franceses. “Foi muito visceral ver minha pátria ser atacada internamente, por próprios franceses. Porque o terrorismo não é só de extremistas. Os irmãos [Said e Chérif] Kouachi [que assumiram o crime em nome de um grupo extremista] ficaram quatro meses no Iêmem para ser treinados, mas viveram  décadas na França. Então, a  identidade profunda deles é francesa”, destacou.

Para Alexandra, a real motivação dos irmãos Kouachi não foi a caricatura do profeta Maomé, mas o desejo de lutar por uma causa para curar uma ferida ainda maior, que é a da identidade, e o fato de não se sentirem franceses.

Ela considerou acertada a decisão do governo do presidente François Hollande de destinar 500 milhões de euros para a luta anti-terrorista, mas adiantou que o problema não está sendo tratado na raiz. “Temos que entender por que alguns dos nossos filhos franceses querem ir para esse lado escuro do terrorismo”. Como  cidadã francesa, “negra, de origem judaica e muçulmana,  e como jornalista também”, disse ter percebido que a ética jornalística não está em prática atualmente. “Não há mais jornalismo de investigação, subjetivo e que olhe todo o painel da diversidade de opiniões. Hoje, o que temos que fazer é produzir conteúdo para vender anúncio. Não verificamos mais informações”, criticou.

A consulesa da França disse que embora ame seu país e os valores de abertura, tolerância e amor, vê que ainda existem preconceitos e discriminações em relação às minorias das quais ela mesma faz parte. “Nasci em um gueto parisiense, e embora esteja hoje na elite, conheço os dois lados. Tenho um irmão que caiu no crack e uma irmã que é faxineira. Por isso, convivo e conheço o que são os dois lados. O problema é que as mídias não nos deixam falar”, disse ela.

Alexandra relatou que apesar de  casada com um diplomata, mesmo portando passaporte diplomático, ela  tem que abrir a mala nos aeroportos por onde passa, devido ao preconceito em relação à cor de sua pele. “É muito ofensivo”. Uma solução, segundo ela, seria uma mudança na Constituição da França, que prega liberdade, igualdade e fraternidade para todos, quando, na prática, isso não acontece. “Não podemos dividir as pessoas por etnias ou minorias. É uma coisa velada”. Destacou também que as pessoas que fazem as leis são, em sua maioria, homens, brancos, da elite, que “não convivem com a realidade”.

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