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Gestores admitem dificuldades para administrar estádios, que se tornaram deficitários

Gestores públicos admitiram nesta quarta-feira (13) dificuldades na administração de estádios construídos ou reformados para a Copa de 2014, que se tornaram deficitários após o evento. Os desafios em torno dos chamados “elefantes brancos” da Copa foram debatidos na Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados.

A iniciativa partiu do deputado Valadares Filho (PSB-SE), com base em reportagem da BBC Brasil, que apontava prejuízo de cerca de R$ 10 milhões para o contribuinte por causa da subutilização das arenas de Cuiabá, Brasília e Manaus. Em comum, essas cidades não têm clubes nas principais divisões do futebol brasileiro.

O valor do prejuízo não foi confirmado na audiência pública, mas o responsável pelo estádio Mané Garrincha, o secretário de turismo do Distrito Federal, Jaime Recena, admitiu que é preciso “criatividade” para manter a arena de Brasília em atividade o ano inteiro.

“O atual governador e eu pessoalmente fomos muito críticos durante a construção dessa arena por causa do tamanho. Na época, o ex-governador tomou a decisão de construir uma arena de 72 mil lugares, e cabe à atual gestão trabalhar para mudar a cor desse elefante e saber de que forma essa arena pode se tornar sustentável. A palavra é uma só: criatividade. O estádio já está construído e a gente precisa dar funcionalidade”, disse Recena.

Recena lembrou que o Mané Garrincha não tem dívidas, mas o custo médio mensal de manutenção está em torno de R$ 800 mil. Desde a construção, o estádio recebeu mais de 2 milhões de pessoas em jogos, shows, eventos e programas de visitação.

Ele disse que, desde a inauguração, o estádio Mané Garrincha sediou 103 eventos. Para este ano, já estão programados jogos do Campeonato Brasileiro de futebol, como Atlético Mineiro e Fluminense, previsto para domingo (17); e shows internacionais, como o da banda de rock Pearl Jam, marcado para novembro.

Três secretarias distritais que funcionavam em imóveis alugados foram transferidas para a arena, com economia de R$ 14 milhões para os cofres públicos. Um grupo de trabalho estuda novas possibilidades de uso para o estádio, com o objetivo de colocá-lo como estratégico nas políticas de turismo e de desenvolvimento econômico.

O superintendente de obras da Arena Pantanal, André da Costa Ferreira, lembrou que o estádio ainda não foi totalmente concluído, o que impede o governo do Mato Grosso de buscar alternativas de gestão, como concessão ou parceria público-privada.

O custo mensal de manutenção desse estádio em Cuiabá varia entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão, valor que tem sido coberto por vários outros eventos, como shows, workshops e congressos.

O presidente da Associação Brasileira dos Operadores de Arenas Multiuso, Eduardo Martins, reconheceu que, apesar do foco em eventos alternativos, a principal solução para as arenas está na melhoria da qualidade do futebol brasileiro, com campeonatos bem organizados e facilidades para o torcedor chegar aos estádios. Ele disse que, mesmo as arenas de cidades onde o futebol é forte precisam da modernização do esporte, sob pena de inviabilizá-las. “Sem futebol, a arena quebra”, afirmou.

Martins lembrou que o Campeonato Brasileiro de 2014 teve média de público de apenas 16.555, com ocupação média dos estádios de 40%, números muito inferiores ao do futebol europeu, onde a presença do público ajuda no faturamento dos clubes e na gestão das arenas.

Para a “melhoria do espetáculo” futebolístico, Martins defendeu o fortalecimento dos clubes, com financiamento de suas dívidas e a adoção de gestão e orçamento profissionais. Defendeu ainda a aprovação final do PL 6531/09, do deputado Deley (PTB-RJ), que prevê o chamado vale-esporte e tem capacidade de ampliar o público dos estádios. A proposta já foi aprovada na Câmara e está em análise no Senado. Deley já foi jogador e técnico de futebol.

Mas, para o deputado Sílvio Torres (PSDB-SP), até o futebol brasileiro chegar a um melhor nível, as novas arenas já terão virado “ruínas”. “Essas arenas são um problema que acho quase insolúvel. Eu não ouvi qual é a proposta para viabilizar essas arenas, que têm custos altíssimos de manutenção e de custeio. Em um quadro em que estados e municípios estão quase à beira da falência, eu não sei como isso será resolvido. Acho que a gente não pode alimentar expectativas que podem se tornar ilusões. Eu não vejo a menor possibilidade de esses estádios serem autossuficientes.”

Deputados lembraram que, apesar de não citada na matéria da BBC, a Arena das Dunas, em Natal, também é deficitária. Na Bahia, o deputado Márcio Marinho (PRB-BA) lembrou que, recentemente, a Justiça proibiu a realização de um evento na Arena Fonte Nova, quando os ingressos já estavam vendidos, o que gerou problemas para o público e os gestores da arena.

Para o deputado Afonso Hamm (PP-RS), é fundamental “o equilíbrio entre o custeio e a cobertura do investimento” na construção dos estádios. Hamm também pediu os dados atualizados do Ministério do Esporte sobre os “benefícios” da Copa, a fim de subsidiar as ações da recente subcomissão de futebol, criada no âmbito da Comissão do Esporte.

O deputado Valadares Filho também manifestou preocupação com a realização de shows em áreas externas dos estádios, o que poderia tirar o caráter multiuso das arenas.

Representante do Ministério do Esporte, o secretário nacional de Futebol e Direitos do Torcedor, Rogério Hamam, afirmou que as arenas estão entre os legados da Copa com capacidade de ajudar na modernização do futebol brasileiro.

Hamam lembrou que são estes estádios os responsáveis pelo fato de Manaus e Brasília terem sido escolhidas para também sediar jogos de futebol das Olimpíadas de 2016. Os demais jogos olímpicos ocorrerão no Rio de Janeiro.

Internautas participaram da audiência pública por meio do Portal e-democracia, com perguntas sobre o aproveitamento das arenas para o esporte universitário e sobre a logística dos governos estaduais usadas em dias de eventos nesses estádios.

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