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Pílula anticoncepcional completa 55 anos com avanços e poucos riscos à saúde

“Tive minha filha, mas acabei não ficando com o pai dela.

A professora Carla Simone Castro, 41 anos, também fez uso da pílula anticoncepcional, mas tem uma história bem diferente para contar.

Após seis meses utilizando a medicação, recomendada por uma ginecologista, ela sentiu fortes dores de cabeça seguidas de três acidentes vasculares cerebrais. Como sequela, Carla ficou 60 dias cega, 45 dias sem o movimento dos braços e pernas e com a fala comprometida.

Casos como o da professora, com mutação genética e um risco aumentado para trombose, são raros, segundo a presidente da Comissão Nacional de Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Marta Finotti. Ao comentar os 55 anos do surgimento da pílula anticoncepcional, completados esta semana, ela lembrou que o medicamento evoluiu muito e que os riscos para as pacientes já foram bem maiores.

“Tivemos grandes mudanças, com uma redução significativa das doses dos componentes, principalmente do estrogêneo. Atualmente, temos uma grande variedade de pílulas, desde as hormonais combinadas, com estrogêneo e progesterona, às pílulas só com progesterona e com estrogêneo natural no lugar do sintético. São avanços muito significativos na redução dos efeitos adversos”.

Para a ginecologista e integrante da Associação de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo, Cristina Benetti, a entrada da pílula anticoncepcional no mercado possibilitou às mulheres

“Olhamos o histórico familiar, hábitos como tabagismo, características de obesidade, doenças associadas como hipertensão, diabetes e síndrome metabólica. Com esse histórico clínico, temos condição de avaliar se a paciente tem alguma contraindicação para a pílula. Não é necessário exames complementares para rastrear predisposição à trombofilia. Não é custo efetivo e não é clinicamente viável.”

A gerente-geral de Monitoramento de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Maria Eugênia Cury, esclareceu que, como a pílula anticoncepcional tem como base hormônios com certo tipo de risco, o medicamento é do tipo tarja vermelha e não tem venda livre no Brasil.

“Para que a mulher possa ter acesso aos anticoncepcionais, é preciso passar por avaliação do médico, afirmou. “O papel da Anvisa é registrar o produto e fazer a análise. E a gente monitora. Temos um sistema para receber notificações de eventos adversos e informartivos e alertas com informações sobre anticoncepcionais”.

Socióloga e assessora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), Jolúzia Batista também avaliou a pílula como uma espécie de revolução no comportamento feminino, sobretudo ao propor a alternativa de relações sexuais livres, sem a imposição de um relacionamento ou de um casamento.

“Mesmo assim, 55 anos depois, ainda existe uma parcela de mulheres, a maioria da periferia e com baixa escolaridade, que não tem acesso à informação e nem ao anticoncepcional. Conhecemos mulheres que acham que o uso da pílula não deve ser continuado e que só tomam, por exemplo, no dia em que vão ter relação sexual. Há um longo caminho a percorrer para que a pílula consiga cumprir o papel a que se propôs de contraceptivo”, concluiu.

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